O assassinato de Saddam Hussein
Nada há para lamentar quanto a Saddam Hussein e sua trajetória. Mas ele merecia um julgamento em corte internacional. E merecia ser julgado por todos os seus crimes, não apenas que se aproveitasse o primeiro julgamento para enforcá-lo às pressas.
Publicado: 02 Janeiro, 2007 - 13h52
Escrito por: CUT CE
As imagens e o udio foram eloqentes: Saddam cercado por encapuzados em estilo Ninja. Os carrascos dizendo improprios para o condenado. Aquilo no foi uma execuo, foi um assassinato, antecedido por um seqestro.Os Estados Unidos no entregaram Cuba ou Venezuela o terrorista Luis Posada Carriles, que confessou ter explodido um avio da Cubana com 170 mortes, alegando risco de maus tratos. No hesitaram em entregar Saddam Hussein ao governo fantasmal do Iraque, mesmo sabendo que punham o n da forca em seu pescoo. E na farsa de julgamento que se seguiu.Nada h para lamentar quanto a Saddam Hussein e sua trajetria. Mas ele merecia um julgamento em corte internacional. E merecia ser julgado por todos os seus crimes, no apenas que se aproveitasse o primeiro julgamento para enforc-lo s pressas.H muito, entretanto, o que aprender em sua trajetria. Saddam Hussein pertencia ao partido Baath, um partido de intenes reformistas em sua origem. Era um dos militares daquela regio criados sob a inspirao de introduzir reformas modernizantes em seus pases, na tradio de Gamal Abdel Nasser. Eram de estilo autoritrio e pretendiam tornar seus pases independentes dos mltiplos imperialismos que sobre eles se abateram com cupidez reforada. Opunham-se a regimes tteres, como os do X da Prsia, hoje o Ir dos aiatols.Os pases do Ocidente reagiram com suas foras militares e com seus servios de inteligncia, para neutralizar as aberturas polticas que punham em risco seus interesses, particularmente os petrolferos, mas tambm os da guerra fria contra a Unio Sovitica. Saddam cresceu politicamente nesta pendncia. Conseguiu esgueirar-se entre seu partido, suas promessas reformistas, as disputas tnicas e religiosas em seu pas. Manteve o poder com mo de ferro e passou a esmagar opositores, inclusive na prpria famlia. Esmagou o povo curdo, que j fora esmagado na Turquia. Mas fez tudo isso com o beneplcito dos Estados Unidos e da Gr-Bretanha, porque tornou-se uma alternativa ao Ir dos aiatols depois da queda do X. bom lembrar que os aiatols religiosos tornaram-se a nica fora poltica organizada de resistncia ao regime do X Rehza Pahlevi depois que as outras foram desarticuladas com ajuda da CIA.Na verdade Saddam no contou apenas com o beneplcito dos Estados Unidos. Ganhou armas qumicas para usar contra os iranianos. Tambm usou-as contra os curdos. Aparentemente, por alguma razo at hoje no bem explicada, Saddam no se sentiu satisfeito com as retribuies e garantias recebidas. Quis mais, e invadiu o Kuwait. A partir da caiu em desgraa. Houve a uma analogia com os talebs do Afeganisto. Instigados e armados pelos Estados Unidos contra os soviticos, depois tornaram-se incmodos para a hegemonia norte-americana na regio, e foram derrubados. Da, bom lembrar, tambm nasceu Osama Bin Laden.Por fim, montou-se a farsa das armas de destruio em massa, nuncaencontradas, para justificar a invaso do Iraque, que trouxe o caos ao pas.Seguia-se o novo modelo conservador norte-americano, gestado inclusive em algumas ctedras universitrias, de uma poltica de terra arrasadapoliticamente para depois "montar-se uma democracia". O resultado a est. Nem democracia, nem mesmo um sistema judicirio no pas. E de quebra a contnua negao pela superpotncia das instncias internacionais de julgamento. Esse processo conseguiu o que parecia impossvel. Transformou Saddam, de assassino que era, num mrtir investido de dignidade diante de carrascos grotescos que mais pareciam seqestradores, no em alguma periferia urbana, mas a servio da poltica terrorista da maior potncia militar que o planeta j viu.Fonte: Agncia Carta Maior