Vito Giannotti historia a luta dos trabalhadores para trabalhadores
'Quero combater a visão predominante de que o povo brasileiro é pacífico, passivo, despolitizado, que não luta', anuncia Vito Gianotti. Italiano, ex-metalúrgico em São Paulo, alma viva do Núcleo Piratininga de Comunicação (NPC) e autor de duas dezenas de
Publicado: 29 Março, 2007 - 09h31
Escrito por: CUT CE
Ligia Coelho - O que o motivou a escrever o livro?Vito Giannotti - J tinha escrito vrios outros livros menores sobre este mesmo tema. O primeiro, em 1970; o segundo, em 1980, um lanamento da Vozes, intitulado Cem Anos de Luta Operria. Teve duas edies. A segunda, com dez mil exemplares, rapidamente esgotados. Muitos colegas, companheiros com quem militei e trabalhei, e alunos dos cursos do NPC, me pedem este livro, do qual me restou apenas um exemplar. Alm disso, constatei que no existe, no Brasil, um compndio que conte a histria dos trabalhadores brasileiros. Existem, sim, timos livros que narram episdios, momentos histricos, mas nenhum que narre a luta dos trabalhadores brasileiros, desde suas origens at os dias de hoje, em linguagem clara, resumida e compreensvel para qualquer trabalhador que tenha, no mximo, oito ou dez anos de estudo. Passei ento a pesquisar e o resultado este livro de 320 pginas. Gostaria que fosse menor, mas no foi possvel. muita informao.LC - Quais as maiores dificuldades que voc encontrou?VG - Resumir as informaes, procurar passar o essencial para quem leu pouqussimo sobre a histria dos trabalhadores ou nunca leu nada. Informaes slidas e suficientes, embora reduzidas, para quem no tem o hbito de ler.LC - Como conseguiu isso?VG - Primeiro: redigindo frases curtas, com vocabulrio o mais simples possvel, usado no dia-a-dia. Frases de, no mximo, 30 palavras. Segundo: evitei citaes. Embora tenha pesquisado em mais de 500 livros, fora jornais e outros peridicos, no fiz citaes, para no tornar a leitura enfadonha. Finalmente, no utilizei notas de p de pgina. Quando terminei o livro, pedi para um amigo, que no terminou o ensino mdio, para que lesse e indicasse todas as passagens que no entendeu e palavras que no conhecia. Ele apontou 850 palavras. Foram todas substitudas. Tive que fazer um esforo de traduzir, sem empobrecer o texto, muitas palavras como: detentores (donos), crcere (priso), fictcio (inventado), taxados de (chamados de), deflagrar (detonar), adulterado (falsificado) e muitas outras.LC - Num livro dessa natureza uma pesquisa to minuciosa, num acervo de mais de 500 livros o autor no corre o risco de incorrer em erros, equvocos, imprecises? O que voc fez para minimizar isso?VG - Para evitar esse problema o livro foi revisado (sob o ponto de vista histrico) por oito pessoas diferentes doutores em Histria, pesquisadores, historiadores, jornalistas. claro que algumas imprecises podem acontecer, mas procurei oferecer informaes seguras das vrias fontes em que pesquisei. Afinal, foram dez anos de trabalho. Na poca do impeachment de Collor escrevi, em apenas 12 dias, Collor, a CUT e a Pizza, que teve duas edies rapidamente esgotadas. Mas, com este, tive que ter muito mais cuidados.LC - Deixando de lado as dificuldades, quais as curiosidades que voc descobriu ao fazer o livro fatos inditos ou pouco conhecidos, aspectos interessantes que gostaria de destacar?VG - Registro alguns fatos muito pouco conhecidos. Por exemplo: descobri que em 1907 houve uma greve dos trabalhadores que construam a linha ferroviria Estrada de Ferro Sul, em Cachoeiro do Itapemirim (ES). A greve durou uma semana. No ltimo dia, a polcia reprimiu violentamente o movimento e matou 72 trabalhadores. O fato foi noticiado de forma muito discreta no Jornal do Commercio do Rio de Janeiro, no dia seguinte ao acontecimento. Uma nota pequena, sem o nome de nenhuma das vtimas. O jornal est guardado no Arquivo Nacional. Creio que no existem, hoje, no Brasil, 50 pessoas que conheam esse fato.Um outro fato que merece registro: em 5 de julho de 1962, os sindicatos liderados pelo PCB e pela ala esquerda do PTB convocaram uma greve geral por aumento de salrio. Aqui no Rio, na Baixada Fluminense (sobretudo em Duque de Caxias e So Joo de Meriti) os trabalhadores famintos atacaram supermercados em busca de alimentos. A polcia investiu contra eles, feriu mais de cinco mil pessoas e matou 43. O registro do jornal ltima Hora, publicado em 6 de julho. Tambm consta do acervo do Arquivo Nacional.Outro fato pouco conhecido: em maio de 1906, ferrovirios de Jundia, interior de So Paulo, entraram em greve reivindicando reduo da jornada de trabalho para oito horas dirias. Doze grevistas foram fuzilados pela polcia, encostados num barranco.Minha inteno no fazer um necrolgio da classe trabalhadora, ou apontar mrtires, mas esses so fatos desconhecidos, pouco conhecidos ou relegados ao esquecimento, que precisamos resgatar. Quero combater a viso predominante nas escolas, na mdia e na sociedade em geral de que o povo brasileiro pacfico, passivo, despolitizado, que no luta. A idia de Gilberto Freyre, a da ndole pacfica do povo brasileiro, um mito. No livro quero combater a balela da tal cordialidade do nosso povo que s serve para perpetuar a alienao e o desinteresse pela poltica. Insinua que o brasileiro s quer saber de samba, futebol, carnaval e mulher. um mito, que rebaixa a auto-estima do brasileiro e o subestima como povo. Em 1968, a represso da ditadura militar matou sete manifestantes em passeatas e atos pblicos. E as pessoas iam s manifestaes mesmo sabendo dos riscos que corriam, o que derruba o mito da passividade do brasileiro.LC - Todos esses episdios ocorreram h 40 anos ou mais, alguns no incio do sculo passado. E hoje, o cenrio no Brasil ainda de violncia contra o trabalhador?VG - Durante o perodo de exploso das greves no Brasil, no final dos anos 1970, a polcia reprimiu violentamente os movimentos. Somente em 1979, matou seis operrios em piquetes. O exemplo mais famoso o de Santo Dias da Silva, em So Paulo, mas h outros, como Oroclio Gonalves, da construo civil de Belo Horizonte, e Benedito Martins, metalrgico de Divinpolis (MG). Hoje a represso maior no campo e contra os moradores de favelas e bairros pobres. s lembrar da chacina dos 19 sem-terra em Eldorado dos Carajs (PA), no final dos anos 90, ou dos inocentes chacinados em Nova Iguau (RJ), em 2006. Dos 20 executados pelas chamadas foras da ordem, 18 no tinham nenhuma passagem pela polcia, eram trabalhadores. Mata-se muito no Brasil. So 55 mil assassinatos por ano contra 119 no Canad e 69 no Japo, um pas que tem praticamente a mesma populao do Brasil, de acordo com dados do livro de Michael Moore, Stupid White Man.LC - At aqui falamos do livro. Gostaria que voc falasse um pouco sobre o autor. Quem Vito Giannotti?VG - No ningum especial. Vito Giannotti apenas um apaixonado pelas lutas dos trabalhadores no mundo e no Brasil.LC - O que levou um italiano, ex-estudante de Filosofia, a trocar a faculdade pela fbrica e a trocar um pas desenvolvido por um pas do terceiro mundo, em plena ditadura militar?VG - Nasci por acaso na Itlia. Sa de l, porque queria transformar este mundo. Naqueles tempos, as idias da luta contra o imperialismo e por um mundo socialista eram muito populares. Influenciados pela Revoluo Cultural chinesa, achvamos que os intelectuais tinham que viver um curto perodo como operrio. Ento sa da Itlia, percorri vrios pases trabalhando como martimo, como pescador, num navio de pesca industrial. Vim para o Brasil para passar poucos meses, mas me apaixonei pelo pas no primeiro dia e resolvi ficar, apesar de o Brasil estar em plena ditadura. Depois de trabalhar no Esprito Santo, fui para So Paulo e trabalhei como metalrgico durante 25 anos.LC - Como foi a convivncia com os operrios brasileiros na fbrica?VG - A minha experincia na fbrica determinou a minha paixo por uma transformao social no sentido do socialismo e especificamente pela comunicao como arma fundamental desta revoluo. Trabalhando na fbrica, meu desespero dirio era ver os trabalhadores comentando novelas, programas de TV tipo Chacrinha ou Flvio Cavalcanti ou as novelas da Globo, sem nenhuma preocupao com os problemas da classe. s segundas-feiras de manh, chegava louco para conversar sobre poltica, discutir a situao da nossa categoria, as condies da classe trabalhadora, os crimes da ditadura e encontrava os colegas comentando o Fantstico, falando de futebol.Ento percebi a necessidade imperiosa de se fazer veculos de comunicao para informar e formar os trabalhadores. Comecei a colaborar com jornais sindicais, a escrever artigos, a editar boletins e panfletos para os trabalhadores. Militava na oposio sindical em So Paulo e me preocupava com a questo da comunicao popular. Fizemos diversos jornais Luta Operria, Luta Metalrgica, Luta Sindical. Os jornais iam mudando de nome conforme eram descobertos e perseguidos pela ditadura. E, talvez por ter passado por uma faculdade e por meu interesse pela comunicao, eu sempre era escalado para escrever os artigos e colaborar nas publicaes.Passei ento a ter uma preocupao obsessiva por uma linguagem fcil, cativante, que capturasse o interesse do trabalhador. Buscamos o operaris, como contraponto linguagem distante, rebuscada, tpica dos jornais de esquerda, cheias de economs, sindicals, politiqus e juridiqus. Fiquei obcecado pela linguagem simples, fcil, atraente. Em 1986 publiquei, pela Brasiliense, O que Jornalismo Operrio, no qual dediquei um captulo inteiro ao operaris. A partir de 1992, juntei a minha experincia da fbrica com a experincia da jornalista Claudia Santiago, da CUT, e passamos a dar cursos sobre comunicao popular e histria dos trabalhadores para todo o Brasil. Escrever em linguagem simples, compreensvel, acessvel a todos um dogma para mim.Servio:As lutas dos trabalhadores brasileiros o tema do livro Histrias das Lutas dos Trabalhadores no Brasil, de Vito Giannotti, publicado pela Editora Mauad.